segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Poema escrito com base da última viagem a São Paulo, Agosto de 2013.

por sp

a recepcionista
do motel semi barato
que cheirava a cigarro
me olha de cima a baixo
e, sorrindo, me pergunta:
- é somente o senhor mesmo?
apenas busco um leito
face ao cansaço
(e pouco dinheiro)
elucido e lhe explico
às vezes, as cabeças
pensantes ou não
precisam parar
senão piram.

Cleber A. Dos Santos

sábado, 4 de outubro de 2014

SILÊNCIO OU POESIA?

Cuida para que teu silêncio
Não seja melhor que tua poesia
Palavras no papel a esmo
Não irão lhe trazer premio.

Se não for passar mensagem
Deixa a poesia quieta e também silencia
Letras a torto e a direito no vão das linhas
Não irão saciar a fome do mundo nem tua ira.

Antes de tudo, busca a poesia interior.
Escancara a porta da alma em silencio
Acende a luz entre o breu das ideias
Para enxergar flores no campo imenso.

Se escreveres, sê forte.
A poesia não tolera o fraco e o patético
A poesia não levará café na cama
Também não serve de anestésico.

O essencial, às vezes, não é profundo.
Buscar a poesia no seu interior

Talvez seja o mais essencial
Para depois encontrá-la no mundo.


domingo, 24 de agosto de 2014

O blog Encruzilhada faz uma justa homenagem no dia do aniversário de um dos mestres da poesia brasileira, Paulo Leminski que hoje, caso estivesse encarnado, faria 70 anos. Evoé, grande mestre!


Ai daqueles
que se amaram sem nenhuma briga
aqueles que deixaram
que a mágoa nova
virasse a chaga antiga

ai daqueles que se amaram
sem saber que amar é pão feito em casa
e que a pedra só não voa 
porque não quer
não porque não tem asa

************************************************

Dor elegante

Um homem com uma dor
É muito mais elegante
Caminha assim de lado
Com se chegando atrasado
Chegasse mais adiante
Carrega o peso da dor
Como se portasse medalhas
Uma coroa, um milhão de dólares
Ou coisa que os valha
Ópios, édens, analgésicos
Não me toquem nesse dor
Ela é tudo o que me sobra
Sofrer vai ser a minha última obra

terça-feira, 19 de agosto de 2014

Interior 

é bom retornar
dessas viagens
que fazemos 
por dentro
de nós
mesmos

as malas
voltam cheias
de sonhos
que não pesam.

domingo, 20 de julho de 2014

baque astral

navalha que corta na alma
teu gelo, meu degredo
beijos reminiscentes

voo no trote do alazão pra lua
busco brilho fosco de estrelas
verbos alados me libertam

galopo por cometas estáticos
vago por corações sonâmbulos
buscando por vida fora da terra
seguindo conselhos de seres erráticos

mergulho em águas rasas
continuo quebrando espinhas
colhendo rosas com espinhos

oh funesta dedicação em vão!
essa de amar dias de neblina
ao ofegar por calores sinceros
em noites quentes de lua cheia

Cleber A. Dos Santos

domingo, 13 de julho de 2014

pós noturno

fugaz, faz-se a face, cara a cara
como num golpe que apaga,
me apego, com medo das lágrimas
mas quem há de enxugá-las?
procedo, me excedo, há tempo?
exponho minhas vísceras à tua mesa
não as jante, junte-as e recomponha
dê vida ao que me resta neste basta.

Cleber A. Dos Santos


segunda-feira, 7 de julho de 2014


Bom Samaritano

Tentei depurar meus sentimentos
Evoquei Adão para aprender
Mas meu paraíso é um inferno
Floreado e cheirando à calcinha.

Na faculdade nada aprendi
Senão, o gosto pelos bares
Admirar o cheiro doce que exala
Das jugulares cansadas das meninas lascivas.

Enquanto tento ler o Novo Testamento
O copo de cachaça me tenta
Assim como as luzes de um puteiro
O padre desistiu da extrema-unção.

Mas se ainda assim me quiser
Me espere de joelhos
Rezando duzentas Ave Marias
E permaneça de boca aberta.

Cleber A. Dos Santos